Cadernos Miroslav Milovic
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Instituto Miroslav Milovicpt-BRCadernos Miroslav Milovic2965-0763O VÍRUS DO CAPITALISMO
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Miroslav Milovic
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2025-12-242025-12-2432113PESQUISA E ENSINO EM FILOSOFIA
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<p>O texto propõe uma reflexão crítica sobre a pesquisa e o ensino em Filosofia a partir da necessidade de clarificar três questões fundamentais: o que é pesquisa, o que é filosofia e o que significa pesquisar o ensino de filosofia. A investigação filosófica é apresentada como resposta a um incômodo originário — o espanto, a dúvida e o desejo de saber — cuja figura exemplar é Sócrates, compreendido menos pelo conteúdo de seus ensinamentos e mais por sua postura ética de humildade diante do não-saber. A partir de uma leitura simbólica do mito do Gênesis, o texto interpreta Eva como figura da Filosofia, entendida como gesto de rebeldia frente à ordem dada e como desejo humano de “tornar-se Deus” por meio do conhecimento do bem e do mal. Essa rebeldia, porém, revela um paradoxo constitutivo da filosofia: a tensão entre o desejo de saber absoluto e o reconhecimento dos limites humanos. A condenação de Sócrates marca, nesse sentido, o surgimento do conflito entre filosofia e política, analisado à luz das reflexões de Hannah Arendt sobre verdade, espaço público e poder. O texto defende que, diante desse conflito, a filosofia historicamente precisou redefinir-se, muitas vezes ocultando-se ou adaptando-se à mentira. Na segunda parte, são discutidas três concepções de filosofia, como ideologia, como arte de definir conceitos e como busca da verdade, e suas implicações distintas para o ensino e a pesquisa em filosofia. Argumenta-se que cada definição engendra finalidades, métodos e práticas pedagógicas específicas. Por fim, o autor sustenta que compreender explicitamente a concepção de filosofia adotada é condição indispensável para conferir sentido, coerência e finalidade ao ensino e à pesquisa filosófica, especialmente no âmbito da formação docente.</p>Marta Nunes da Costa
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2025-12-242025-12-2432172510.46550/cadernosmilovic.v3i2.139O PODER INVISÍVEL DO CAPITALISMO ATRAVÉS DA PERSUASÃO ALGORÍTMICA
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<p class="p1" style="margin: 0cm; text-align: justify;"><span style="font-size: 10.0pt;">O artigo tem como objeto de estudo o poder invisível que o capitalismo exerce por meio da persuasão algorítmica, diretamente relacionada à supressão cultural. O objetivo é analisar como a lógica capitalista se apropria do <em>soft power</em>, utilizando a persuasão algorítmica para moldar comportamentos e direcionar a subjetividade, promovendo a homogeneização cultural. Para tanto, adota o método qualitativo, pautado em revisão bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos, com destaque para a contribuição de Miroslav Milovic, cujo pensamento é fundamental para compreender como o capitalismo exerce dominação ao incutir necessidades que jamais se satisfazem, gerando um ciclo permanente de insatisfação. A fundamentação teórica articula Milovic, que propõe a Comunidade da Diferença como alternativa à homogeneização, com Joseph Nye e seu conceito de <em>soft power</em>, Herbert Marcuse e a crítica às falsas necessidades, Byung-Chul Han e sua análise da psicopolítica digital, além de Gayatri Spivak e a discussão sobre a subalternidade. Os resultados evidenciam que os algoritmos funcionam como instrumentos que potencializam a hegemonia cultural, sobretudo a norte-americana, como critica Milovic, fragilizando expressões culturais periféricas. Conclui que a persuasão algorítmica atua como pilar de manutenção do sistema capitalista global por meio do <em>soft power</em>, ao mesmo tempo em que revela a necessidade de resistências coletivas, especialmente pela efetivação da Comunidade da Diferença proposta por Milovic, como caminho para a preservação da diversidade cultural.</span></p>Kauan de Sousa RodriguesKellyane Macêdo Martins
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2025-12-242025-12-2432274210.46550/cadernosmilovic.v3i2.134A VANGUARDA DO ATRASO
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<p>Este ensaio propõe que o Brasil deixou de ocupar a periferia temporal do capitalismo para tornar-se seu laboratório avançado. A partir da metáfora do Ornitorrinco, de Francisco de Oliveira, argumenta-se que a combinação brasileira de alta tecnologia, informalidade estrutural e superexploração não representa um atraso histórico, mas o paradigma emergente da razão digital. A plataformização do trabalho universaliza uma lógica que o Brasil conhece há séculos: a fusão entre vida nua, precariedade e eficiência econômica. Dialogando com Byung-Chul Han, Walter Benjamin, Mbembe e Milovic, o texto sustenta que o “sujeito do desempenho” encontra, no Sul Global, sua expressão mais radical — não como neurose do sucesso, mas como luta pela sobrevivência. A estética digital da periferia, capturada pelo algoritmo como commodity global, reforça um regime de visibilidade que estetiza a miséria e neutraliza sua potência política. Ao deslocar a soberania para o código e substituir o Direito pela programação, o capitalismo de plataforma realiza a universalização do Ornitorrinco. O ensaio conclui que o Brasil não é o passado do capitalismo, mas seu futuro — um futuro onde a modernidade alcança sua forma mais brutal ao transformar o colapso social em motor de acumulação.</p>Rafael Amaral Vieira
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2025-12-242025-12-2432436010.46550/cadernosmilovic.v3i2.133O OUTRO, A RUA E O COMUM
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<p>Este artigo investiga o pensamento de Miroslav Milovic em diálogo crítico com Giorgio Agamben, Antonio Negri e a tradição do Direito Achado na Rua, a fim de repensar os fundamentos do Direito em tempos de crise da modernidade. A partir da centralidade da linguagem e da performatividade jurídica, analisa-se a tensão entre soberania e potência, contrapondo a inoperatividade de Agamben e a ontologia do fazer de Negri. Nesse percurso, destaca-se a noção do Outro como núcleo da comunidade da diferença, fundamento ético-político de uma concepção de Direito aberta à pluralidade. O presente texto busca demonstrar que o Direito, longe de se reduzir ao monopólio estatal, emerge como prática viva, plural e emancipatória, forjada nas lutas sociais. Conclui-se que o direito deve ser compreendido como espaço de afirmação do Outro e como potência libertadora e que o Direito Achado na rua contribui para trazer a filosofia para o mundo da vida.</p>Catarina Pierdoná WasilewskiFlavio Eder de Carvalho Júnior
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2025-12-242025-12-2432617710.46550/cadernosmilovic.v3i2.137E SE AS ÁGUAS FOSSEM SUJEITOS DE DIREITO?
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<p>Este artigo é conduzido por uma reflexão crítica sobre as “águas” como presenças vivas no direito brasileiro, deslocando-as da condição de bens comuns para a possibilidade de reconhecê-las como sujeitos de direito. Inspirado em cosmovisões indígenas que compreendem a água como entidade dotada de memória e agência, o texto mobiliza a noção de “florecidade” (Krenak, 2025) para tensionar categorias jurídicas moldadas pelo antropocentrismo. Apoia-se em Eros Grau (2024), para quem o sujeito de direitos é construção normativa e não dado natural, o que autoriza ressignificar as águas como sujeitos jurídicos por expansão ética e epistemológica. Em convergência com Sousa (2008), defende-se o reflorestamento do imaginário jurídico, abrindo espaço para reinscrever as águas no âmbito de uma justiça ecológica. O diálogo com De Carli (2014) e Segato (2014) problematiza a pluralidade jurídica brasileira, especialmente no campo da responsabilidade civil ambiental. Nesse sentido, a discussão incorpora contribuições da Etnoterminologia (Carneiro & Gomes, 2024), destacando os mecanismos de domesticação e estrangeirização na criação de terminologias jurídicas em línguas indígenas, revelando formas próprias de organização do conhecimento jurídico. Amostras de etnotermos Sateré-Mawé (Bravo & Souza, 2024), que condensam identidades e modos indígenas de normatividade, evidenciam como tais signos linguísticos permitem que os povos originários acessem o Estado brasileiro, e que o Estado também os acesse, por meio de uma linguagem jurídica própria ou traduzidas a partir suas instâncias deliberativas. Assim, no campo das juridicidades indígenas, esses etnotermos impulsionam deslocamentos conceituais que desafiam a rigidez da dogmática moderna e ampliam o acesso à justiça.</p>Marcos de Campos Carneiro
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2025-12-242025-12-2432799610.46550/cadernosmilovic.v3i2.135CARTOGRAFIA DECOLONIAL DO ACESSO QUILOMBOLA ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE
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<p>Este estudo consiste em um relato de experiência desenvolvido em parceria com 05 Comunidades Quilombolas da região do Sertão do São Francisco/PE, cujo o objetivo tornou-se evidenciar, a partir de representações cartográficas, a vulnerabilidade do acesso quilombola ao Sistema Único de Saúde (SUS), especificamente no Estado de Pernambuco. Para tanto, a metodologia respaldou-se na utilização do método indutivo, abordagem qualitativa, pesquisa bibliográfica e relato de experiência. Já a produção cartográfica baseou-se em dados fornecidos pelas lideranças quilombolas, especialmente no que se refere à localização das comunidades, complementados por informações dos pontos de acesso às políticas públicas, obtidas através da plataforma Google Maps. A base teórica utilizada, por sua vez, fundamenta-se em uma abordagem indo-afro-latino-americana, a qual possibilita a reflexão de que a ausência de implementação de políticas públicas nos territórios quilombolas revela a persistência de estruturas racistas e exploratórias, responsáveis por perpetuar, sobretudo, a desigualdade social e por negar o pleno exercício de direitos aos povos tradicionais. No que se refere aos resultados, nota-se que, no contexto Quilombola pernambucano, exercer o direito fundamental à saúde, significa enfrentar longas distâncias, pois há comunidades que não são assistidas por unidades básicas de saúde dentro do seu território. Além disso, os dispositivos voltados à saúde, disponibilizados pelo Estado de Pernambuco, além de estarem localizados, em grande medida, nos centros urbanos, não oferecem uma infraestrutura adequada, como transportes e estradas, que garantam o acesso digno desses povos ao Sistema Único de Saúde (SUS).</p>Lucas Britto Paes Duque
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2025-12-242025-12-24329710610.46550/cadernosmilovic.v3i2.138CRISE EXISTENCIAL, NARRATIVA E MODERNIDADE
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<p>O presente trabalho propõe uma reflexão crítica sobre a crise existencial, a perda de profundidade narrativa e os impactos da hipermidiatização na subjetividade contemporânea. Inspirado por uma trajetória pessoal e teórica, o ensaio articula os pensamentos de Jean-Paul Sartre, Byung-Chul Han e Miroslav Milovic para compreender como a aceleração digital, o culto à performance e a lógica algorítmica afetam o modo como vivemos, sentimos e nos relacionamos. Sartre, em <em>A Náusea</em>, denuncia o absurdo da existência e o vazio de sentido num mundo sem essência prévia. Han, por sua vez, em <em>A Sociedade do Cansaço</em> e <em>A Crise da Narração</em>, aponta a exaustão subjetiva causada pela pressão por exposição constante e pela fragmentação do tempo. Já Milovic, em <em>Comunidade da Diferença</em>, convida à construção de comunidades baseadas na escuta e no reconhecimento da alteridade. O trabalho defende que a superexposição digital substitui a experiência pela imagem, esvaziando a capacidade de narrar com profundidade. Ao final, propõe como resistência o resgate da escuta, da convivência com a diferença e da autenticidade como formas de reencontrar o sentido em meio ao caos contemporâneo. Narrar, nesse contexto, torna-se um gesto de resistência e uma forma de permanecer humano.</p>Rian da Cruz Biase
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2025-12-242025-12-243210712310.46550/cadernosmilovic.v3i2.140ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DOS MOVIMENTOS PUNITIVISTAS
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<p><span style="font-weight: 400;">Este ensaio propõe uma apresentação da criminologia crítica com raízes nos estudos da Teoria Crítica do Instituto de Pesquisa Social da Escola de Frankfurt. Diante de um cenário de crise do sistema carcerário brasileiro, do aumento progressivo da população prisional e da defesa cada vez mais relevante da violência policial e de medidas extremas de punição, registrada em pesquisas recentes, objetiva-se problematizar elementos objetivos e subjetivos que se imbricam na demanda das massas por repressão. Desse modo, recorre-se ao referencial de Rusche e Kirchheimer, Adorno e Horkheimer e da psicanálise contemporânea, na intenção de pontuar vértices de análise que complexificam a problemática e apontam para uma realidade de conflito entre um Estado dito ressocializador e democrático e um clima social avesso a um estereótipo de “criminoso” estabelecido culturalmente e necessário para a manutenção de movimentos autoritários. Compreende-se que o modelo de racionalidade, o anseio pela dominação da natureza e o mal-estar contemporâneo, em suas raízes filosóficas, sociais e psicodinâmicas, corrobora a adesão ao ódio generalizado perpetrado pelos movimentos punitivistas.</span></p>Emerson Batista Silva Oliveira
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2025-12-242025-12-243212513310.46550/cadernosmilovic.v3i2.123NOTA PRÉVIA DO DOSSIÊ
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<p>Os artigos e a resenha que compõem este dossiê temático são produções que foram ensejadas a partir da realização do I Encontro de Filosofia Brasileira, evento ocorrido em abril de 2025 na Universidade Federal de Pernambuco e organizado pelo Grupo de Estudos Filosofia Brasileira. Esse evento representou uma dimensão simbólica importante na medida em que foi o primeiro organizado nessa universidade a trazer a expressão filosofia brasileira em seu título. A escolha por Filosofia Brasileira ao invés de outros termos significa, entre outras coisas, uma resposta e um posicionamento filosófico decisivo frente a uma parte da tradição que durante muito tempo negou a existência de tal filosofia. É, de alguma forma, um esforço para resistir e dar voz a obras silenciadas e postas à margem do cânone. Dessa forma, os textos selecionados nessa edição resguardam em suas linhas um tanto do clima, das intenções e das preocupações filosóficas vivenciadas ao longo daqueles três dias.</p>Alécio de Andrade SilvaGilfranco Lucena dos SantosThiago André Moura de Aquino
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2025-12-242025-12-2432137137ENTRE CIÊNCIA E SENTIDO
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<p>A filosofia de Raimundo Farias Brito se afirma, antes de tudo, como reação às correntes dominantes de seu tempo, em especial ao positivismo e ao cientificismo monista, cuja pretensão de reduzir o pensamento ao domínio técnico-científico é frontalmente recusada. Contra esses sistemas, Brito defende que a filosofia só encontra legitimidade quando interroga os princípios últimos da realidade, tarefa que apenas a metafísica pode cumprir. Sua crítica à modernidade não se limita, contudo, à denúncia das insuficiências do positivismo: ela se estende também ao criticismo kantiano, ao qual opõe uma tentativa de restaurar a unidade do saber. Nesse itinerário, a metafísica surge não como tema periférico, mas como eixo estruturante da razão, da moral e da própria possibilidade do filosofar. Com base na análise de textos fundamentais e em diálogo com intérpretes, o artigo mostra como Brito empreende um esforço singular de reconciliação entre ciência, ética e metafísica. Conclui-se, assim, que em sua obra a metafísica desperta como fundamento da busca filosófica por sentido.</p>Halwaro Carvalho Freire
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2025-12-242025-12-243216117310.46550/cadernosmilovic.v3i2.124A DÁDIVA ABSOLUTA DO NÃO-SABER
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<p>O texto desenvolve uma reflexão filosófica de cunho ontológico e antropológico acerca da distinção entre o “eu” e o “si”, propondo que o acesso ao ser não se dá pelo saber constituído, mas pelo entremeio no qual o ser precede toda decisão lógica, conceitual ou identitária. A partir da noção platônica de metaxis, reinterpretada por autores como Eric Voegelin, Aristóteles, Castoriadis e Roy Wagner, o autor sustenta que o ser é o próprio entremeio, anterior às oposições entre forma e caos, saber e ignorância, humano e divino. Esse entremeio manifesta-se como noûs, compreendido como imaginação primeira, uma “ignorância inteligente” que funda e excede todo logos. Contra o princípio da razão suficiente e a lógica do terceiro excluído, propõe-se a noção de “forma esquizofrênica” — ou “forma holográfica” — como alusão ao caráter indecidível, poético e ficcional do real. O texto argumenta ainda que mito e razão não se opõem, pois tododo logos é também mythos, e que toda realidade ordenada é uma construção apolínea erigida sobre a embriaguez originária do caos dionisíaco. Nesse horizonte, a filosofia não se define pela utilidade, mas como cuidado do não-saber e do silêncio que torna possível a criação de mundos, sentidos e povos. Por fim, em um contexto marcado pelo niilismo e pela fragmentação subjetiva produzidos pelo capitalismo contemporâneo, o texto afirma a possibilidade sempre renovada de encontros com o divino, entendido não como entidade teológica, mas como potência de sentido, capazes de inaugurar novas formas de existência, criação e comunidade.</p>Abah Andrade
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2025-12-242025-12-243213915010.46550/cadernosmilovic.v3i2.130A IMPORTÂNCIA DA ESCOLA DO RECIFE
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<p>O texto desenvolve uma reflexão filosófica e histórico-crítica sobre a Escola do Recife, compreendida como a primeira escola sistemática do pensamento filosófico em solo brasileiro. Partindo da necessidade de recuperar historicamente o sentido e a importância de uma escola filosófica, o autor defende que a filosofia se realiza inseparavelmente de sua história e que a apropriação crítica desse legado é condição para seu devir contemporâneo. Nesse horizonte, a Escola do Recife é analisada como um movimento intelectual marcado pelo debate, pela abertura ao pensamento alemão — especialmente mediado por Tobias Barreto e Sílvio Romero — e pelo compromisso com as urgências políticas, jurídicas e sociais de seu tempo, como a abolição da escravidão, a cidadania e a ampliação dos direitos. Por meio de um diálogo com a tradição filosófica, que remonta à Escola de Mileto e ao modelo dialógico mestre-discípulo, o texto sustenta que a Escola do Recife instaurou no Brasil um modo de filosofar crítico, histórico e engajado. Por fim, problematiza-se a exclusão dessa tradição dos currículos de Filosofia, apontando fatores como preconceitos regionais, raciais, políticos e econômicos, bem como estratégias de dominação cultural, defendendo a necessidade de reatualizar a Escola do Recife no século XXI como tarefa filosófica e formativa.</p>Alfredo de Oliveira Moraes
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2025-12-242025-12-243215116010.46550/cadernosmilovic.v3i2.127UMA CRÍTICA ENTRE LIBERDADE E DEVIR NO FAZER FILOSÓFICO BRASILEIRO A PARTIR DE UM POSFÁCIO DE ROBERTO GOMES
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<p>Este artigo tem como objetivo explorar os textos do filósofo Roberto Gomes, com foco principal no posfácio escrito em 2001, “Liberdade e devir”, para seu livro de 1977, <em>Crítica da Razão Tupiniquim</em>. Nesse contexto, apresentamos os principais temas trabalhados pelo autor a respeito das condições de possibilidade para a filosofia brasileira, bem como para a prática filosófica em geral. Para tanto, foi necessário considerar o contexto brasileiro na década de 1970, no auge da ditadura militar no país, bem como a atualização de Gomes de sua crítica no contexto da virada para o século XXI, que, segundo o autor, é marcado pela “globocolonização”. A partir do diagnóstico crítico de Gomes sobre o que significa fazer filosofia nesses dois momentos históricos, cruzamos as reflexões do filósofo com outras perspectivas coerentes com seus escritos, a fim de estabelecer uma posição de reflexão sobre o que é urgente para nós hoje: filosofar no aqui-agora.</p> <p> </p>Rafael Gironi Dias
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2025-12-242025-12-243217519610.46550/cadernosmilovic.v3i2.128DISPOSITIVO DE RACIALIDADE E OS MECANISMOS DE PODER DA BRANQUITUDE
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<p>Nas sociedades estruturadas pelo racismo o indivíduo branco é posto como padrão de ser humano universal e sua racialidade é invisibilizada. A branquitude é constituída a partir de relações de poder que estabelecem uma ordem racial na qual o branco representa o ideal civilizatório a ser seguido, imputando-lhe valor simbólico e material. Para analisar essas relações de poder e dominação racial, a filósofa Sueli Carneiro adota o conceito <em>Dispositivo de racialidade</em>, em consonância com o arcabouço conceitual da filosofia de Michel Foucault acerca dos dispositivos de poder. O Dispositivo de racialidade opera a partir de mecanismos de poder que engendram o Ser pleno ou Ser hegemônico, isto é, o sujeito dotado de razoabilidade, normalidade e universalidade identificado historicamente com o homem branco europeu (CARNEIRO, 2023). Através da raça, o dispositivo de racialidade demarca o sujeito evidenciando o seu valor, a medida de sua humanidade. Na perspectiva dos Estudos Críticos da Branquitude, este trabalho busca compreender quais os mecanismos de poder do Dispositivo de racialidade que operam a partir das características da branquitude brasileira.</p>Caio César Bispo Teodoro
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2025-12-242025-12-243219721210.46550/cadernosmilovic.v3i2.129NEGRITUDE SEM IDENTIDADE
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Maciel Carneiro
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2025-12-242025-12-243221321710.46550/cadernosmilovic.v3i2.126INDIGENATO ENQUANTO UMA QUESTÃO FILOSÓFICA
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<p>Tem-se em vista reunir categorias que possibilitem interpretar a filosofia da diferença desde um ponto de vista afro-indígena utilizando-se das análises levinasianas sobre habitação, trabalho e corporeidade e de pensadores brasileiros que recepcionaram algumas questões levantadas pela filosofia convencional como Davi Kopenawa, Ailton Krenak, Eduardo Viveiro de Castro e Darcy Ribeiro. Levinas tornou-se bastante conhecido por desenvolver uma filosofia que tem como ponto de partida as relações interpessoais elaborando um conjunto de conceitos que giram em torno da ideia de alteridade. Apesar da sua forte relação com a ética, o que nos interessa no seu trabalho é a relação entre as categorias de rosto, expressão e sensibilidade. Além do caráter social destas relações, levinas defende que há a manutenção de um sistema ou estrutura de pensamento que se realiza na medida em que discrimina a diferença ou a pluralidade em nome do caráter universal da razão, mas na contramão, segundo parece, de algumas antíteses ao pensamento ocidental que se sustentaram a partir de uma mera oposição ao pensamento cognitivo. Em “Totalidade e Infinito” Levinas elabora, a partir dos seus estudos fenomenológicos, um conjunto de relações que foi denominado “modos de identificação”, a partir dele categorias como habitação, territorialidade e trabalho serão pensadas.</p>Rychard Klysman de Arruda Cintra
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2025-12-242025-12-243221922610.46550/cadernosmilovic.v3i2.132MOSTRAR O INDIZÍVEL
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<p>Neste artigo, buscamos conceituar a linguagem cinematográfica segundo a elaboração teórica de Evaldo Coutinho. Considerando o pouco reconhecimento do filósofo recifense pelo grande público, propomos uma análise exegética de seus principais conceitos estéticos. Em um primeiro momento, apresentamos seu projeto estético-filosófico, com ênfase na teoria das matérias exclusivas das artes, destacando a relação entre intuição e matéria, bem como o papel do criador na determinação do tema que estrutura a obra. Em seguida, examinamos aspectos centrais de sua teoria do cinema, como a função do cenarista enquanto filósofo-artista portador de uma visão cosmogônica, os recursos da câmera para a exposição dessa visão, a noção de subentendimento como valor intelectual do cinema, além do papel alegórico do ator e do significado filosófico que apenas o cinema é capaz de exprimir. Por fim, esperamos contribuir para a nova avaliação que o lugar do cinema adquire na filosofia coutiniana, ressaltando seu valor estético e a força disruptiva de sua concepção, que desafia e reconfigura os modos tradicionais de compreender, filosoficamente, a sétima arte.</p>Roberty Vieira Santos Filho
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2025-12-242025-12-243222723910.46550/cadernosmilovic.v3i2.125O CONCRETO APARECER DO NÃO-APARECENTE NA ARENA OU PARA FALAR ALEMÃO EM PORTUGUÊS
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<p>O artigo propõe uma releitura do ensaio “Notícia sobre a literatura brasileira: instinto de nacionalidade”, de Machado de Assis, afastando-o de uma interpretação meramente histórica ou diagnóstica da formação de uma consciência nacional literária. Sustenta-se que o texto machadiano circunscreve, de modo inaugural no contexto brasileiro, a lógica da negação não-excludente, posteriormente formalizada por Massimo Donà a partir da reflexão do Schelling tardio. Para tanto, o argumento desenvolve-se em dois momentos: inicialmente, delimita-se a estrutura dessa lógica no interior da Idee des Seyns schellinguiana, explicitando seu papel estratégico na constituição de uma perspectiva realista fundada na semantização do referente do metá. Em seguida, analisa-se o ensaio de Machado de Assis, evidenciando como a questão da nacionalidade literária mobiliza a negação não-excludente para tornar inteligível o paradoxo de uma literatura que se afirma brasileira precisamente ao não se fechar numa identidade nacional excludente. Duas premissas sustentam a análise: uma de ordem histórica, voltada à recepção inicial do texto, e outra de ordem teórica e filosófica, central para a tese defendida.</p>Gabriel Loureiro Pereira da Mota Ramos
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