FIM DA UTOPIA E CINISMO CONTEMPORÂNEO
CONSIDERAÇÕES MARCUSEANAS SOBRE O REALISMO CAPITALISTA
DOI:
https://doi.org/10.46550/cadernosmilovic.v4i2.155Palavras-chave:
Herbert Marcuse. Mark Fisher. realismo capitalista. negatividade. presente perpétuo.Resumo
O presente artigo investiga o bloqueio contemporâneo da imaginação política a partir do diagnóstico do realismo capitalista formulado por Mark Fisher, em diálogo com a concepção de utopia e negatividade em Herbert Marcuse. O problema central consiste em compreender como o capitalismo tardio não apenas organiza a economia, mas produz um regime afetivo e temporal marcado pelo cinismo, pela naturalização do presente e pela experiência do “presente perpétuo”, no qual alternativas históricas se tornam impensáveis. O objetivo do trabalho é analisar de que modo a utopia, longe de representar um ideal abstrato ou ingênuo, pode ser recuperada como força crítica capaz de tensionar o fechamento do horizonte histórico imposto pelo realismo capitalista. Metodologicamente, o trabalho desenvolve uma análise teórico-conceitual fundamentada na leitura crítica de Realismo Capitalista (2009), de Mark Fisher, da conferência The End of Utopia (1967) e de obras centrais de Herbert Marcuse, especialmente O homem unidimensional (1964) e Eros e Civilização (1955), mobilizando ainda contribuições da teoria crítica e da filosofia social contemporânea. Argumenta-se que o cinismo dominante não decorre da ignorância, mas de uma consciência paralisada e integrada à racionalidade técnico-produtiva, que administra necessidades, desejos e formas de sensibilidade. Nesse contexto, a utopia adquire o estatuto de possibilidade concreta não por oferecer modelos reconciliados de futuro, mas por operar como negatividade: a recusa da absolutização do existente e a reabertura da tensão entre o que é e o que poderia ser. Conclui-se que o chamado “fim da utopia”, em Marcuse, não indica esgotamento histórico, mas a exigência de reativar a negatividade crítica como condição para resistir ao cinismo e reabrir o futuro para além dos limites do capitalismo tardio.
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