URIHI A: O CORPO-TERRA COMO RENOVAÇÃO TROPICAL

Autores

DOI:

https://doi.org/10.46550/cadernosmilovic.v4i1.169

Palavras-chave:

urihi a, corpo-terra, cosmologias ameríndias, antropofagia, imanência

Resumo

O texto parte da noção yanomami de urihi a — a terra-floresta como um corpo vivo — para deslocar a compreensão moderna da terra como objeto, recurso ou território. A partir do testemunho de Davi Kopenawa em A queda do céu, a terra deixa de aparecer como exterior ao humano e passa a ser pensada como um plano de relações no qual os próprios corpos se constituem. Nesse movimento, a proposição de um corpo-terra não opera como metáfora, mas como inflexão ontológica: não habitamos a terra, somos dela. Em diálogo com Gilles Deleuze e Félix Guattari, sobretudo com a geologia da moral em Mil platôs, a terra é tomada como plano de consistência e operador imanente do pensamento, atravessada por estratificações e processos de desterritorialização que desestabilizam a centralidade do sujeito. Tal deslocamento encontra ressonância nas formulações de Eduardo Viveiros de Castro, ao tensionar as categorias de “índio” e “indígena” e afirmar a necessidade de pensar com outros regimes de mundo, em vez de explicá-los. A esse percurso soma-se a antropofagia de Oswald de Andrade, compreendida como ética da incorporação e da metamorfose. Em convergência com a cosmologia yanomami, essa perspectiva permite distinguir tal gesto de um canibalismo predatório que caracteriza a relação moderna com a terra. Propõe-se, assim, pensar a possibilidade de uma nova terra — não como transcendência, mas como transformação imanente — em que corpo, pensamento e mundo voltam a se compor.

Publicado

2026-07-03