SENSIBILIDADES ADMINISTRADAS: SOBRE A DESILUSÃO NAS RUÍNAS DE UM MUNDO

Autores

  • Emerson Batista Silva Oliveira Universidade Federal de Uberlandia, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.46550/cadernosmilovic.v4i2.183

Resumo

O estatuto da sensibilidade na filosofia de Adorno é irredutível às ricas contribuições da psicanálise para a teoria crítica. Justamente por retirar de fenômenos sociais suas principais motivações filosóficas, essa é uma tradição cujo estudo perpassa, necessariamente, o reconhecimento da dor do existente e da dominação enquanto conceito amplo, sob o qual se abrigam diferentes formas de sujeição e de sofrimento. Embora Adorno não possua uma filosofia moral propriamente dita, é possível tecer aspectos de uma dialética da moralidade em suas obras, em que se destaca seu “fundamento somático”. Neste ponto, Adorno e Horkheimer elencam o declínio da compaixão como momento do impulso moral, a despeito de sua necessidade, visto que se encontra subvertida na ordem capitalista, em que ganha novas roupagens de impotência. Dada a asfixia que o mundo administrado impõem às individualidades, torna-se socialmente necessário que toda faculdade sensível e racional, que possa denunciar suas fraturas, seja esvaziada. Especialmente em contextos de graves crises humanitárias, Freud já denunciava a condenação que vive o povo ao agir de acordo com princípios morais que são inaceitáveis, ou seja, que não correspondem às suas motivações pulsionais. Pergunta-se, então: se em Adorno a moralidade é também pulsional, e em Freud há alterações nos destinos da pulsão em contextos de crise e guerra, o que as relações pouco significativas, apáticas e superficiais de sujeitos com os horrores hodiernos denunciam acerca de uma moral alicerçada em sensibilidades administradas para os fins da reprodução social? Para essa problematização, articulou-se, especialmente, o ensaio “Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte” (Freud, 2025) e a “Dialética do Esclarecimento” (Adorno e Horkheimer, 1985). Trata-se de uma apologia à crítica e à emancipação das faculdades sensíveis, possíveis alicerces de identificações mais comprometidas com os objetos, que libertem o não-idêntico daquilo que os faz sofrer.

Publicado

2026-07-04

Edição

Seção

ARTIGOS